Como vimos na última semana, desde os anos 90 foram lançados muitos livros de RPG históricos. Entretanto eu sentia falta de um que dialogasse diretamente com a história do Rio Grande do Sul e que pudesse impulsionar e gerar muitas histórias nas mais diferentes perspectivas, sem cair no lugar comum, no bairrismo ou na idolatria das tradições.
Foi dessa lacuna que nasceu A Saga de Gravatahy – um RPG criado com a intenção de despertar a imaginação histórica e também oferecer aos educadores uma ferramenta de ensino e aprendizagem. O projeto está sendo realizado com recursos da Lei 14.399/2022 – Política Nacional Aldir Blanc, via edital público da Prefeitura de Gravataí.
Engajamento e pertencimento
Sabemos que o engajamento é um dos maiores desafios na educação. Por isso, o jogo também foi criado para ajudar professores a criarem “subsunçores” (Teoria de Ausubel) — espaços onde os alunos cocriam, se envolvem, e passam a se ver no centro do processo de aprendizagem. Ativam-se imaginários e criam-se novos saberes na arte. Os subsunçores são como “ganchos”, “pistas” que facilitam a assimilação de novos conceitos quando forem explorados formalmente, por exemplo, no espaço da sala de aula.
O jogo coloca o estudante como protagonistas de narrativas ligadas à história, as mitologias (indígenas tanto guaranis, quanto carijós, africanas e açorianas) e cultura do sul do Brasil. Em um cenário fantástico, um Brasil ainda com ares coloniais mesmo adentrando no século XVIII – XIX. Um universo inspirado na cidade de Gravataí (RS).
Um processo coletivo e cuidadoso
Após a escrita inicial, o texto foi revisado por dois professores historiadores, com sugestões e comentários que ajudaram a tornar o material mais preciso e aplicável no contexto escolar. Luciano da Silva Rodrigues defendeu recentemente sua dissertação de mestrado sobre RPGs para uso educacional e apoia o projeto na criação do Guia do Educador, com olhar atento para sala de aula. No ano de 2003, tive a oportunidade de estudar os RPGs no âmbito da minha dissertação orientada pela Profa. Dra. Lúcia Maria Giraffa. Mesmo após 20 anos eu pude resgatar alguns desejos que envolvessem RPG, sala de aula e principalmente o ensino de história. O Guia do Educador foi criado com atenção direta à BNCC, oferecendo caminhos práticos para trabalhar História, Literatura, Geografia, Arte e mais.
Contamos também com o apoio voluntário de dois professores historiadores de Gravataí – Prof. Amon da Costa e Prof. Carlos Adriano Albani. Parceria fundamental para dar direcionamentos e esclarecimentos sobre a história da cidade. Inclusive foi fundamental para perceber quantas lacunas temos sobre a história de Gravataí. Certamente o mesmo acontece em outras cidades. Assim, o resultado é um conteúdo sensível, crítico e comprometido com as histórias do local e que mantem a sua potência narrativa.
Facilidade de uso: ninguém precisa ser mestre
Sabemos que muitos educadores podem ter receio de usar RPG por não terem familiaridade com o formato, excesso de regras, ter que criar uma longa história prévia. Pensando nisso, o jogo foi estruturado para ser acessível:
- O Guia do Educador serve como porta de entrada
- Apresentação do modelo RPGSA (RPG na Sala de Aula) criado na dissertação do Luciano Rodrigues.
- O sistema de regras (SAGEN) permite criar narrativas colaborativas e até jogar sozinho, sem precisar de um mestre tradicional ou cocriando histórias de forma cooperativa sem grandes preparos. O SAGEN é uma remixagem de vários sistemas de RPGs existentes e distribuídos livremente, tais como, C4, Dominus, Solo10 e o PUSH.
Tudo foi pensado para que o professor tenha liberdade na adaptação e na condução das atividades em suas aulas.
Formações, oficinas e o que vem a seguir
Em agosto começaremos jogar com algumas turmas da rede pública de Gravataí, além da formação de professores. A partir daí, A Saga de Gravatahy se expandirá com:
- Oficinas nas escolas para os alunos
- Mesas de jogo em espaços culturais
- Formações para docentes
- Palestras sobre a criação de narrativas interativas
- Game jams para criar novos materiais, suplementos, expansão do universo Gravatahy, incluindo materiais para os professores.
- Concursos literários que ampliarão o universo do jogo
Gravatahy é um universo que serve para um processo de criação coletiva — e uma porta de entrada para novas formas de pensar a história e a identidade cultural. Lançamento da versão digital do livro, 100% gratuito, em junho e o lançamento do site oficial no dia 31 de maio de 2025.
E para cultivar seus mundos?
- que profissionais, professores, pesquisadores, estudiosos podem ser consultados para ajudar na criação do seu mundo?
- é possível fazer alinhamentos com os conteúdos e competências estabelecidas na BNCC? Logo, seu jogo/mundo poderia ser adotado em sala de aula?
- já pensou que concursos e game jams são eventos interessantes para ampliar seu mundo?
Acompanhe o projeto, se você precisa pensar o uso de RPG na sala de aula ou na criação de mundos imaginários e narrativas interativas nos jogos analógicos, nos jogos digitais, na literatura e na produção audiovisual. Precisa desenvolver estas experiências (digitais ou não) sóme chamar!
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